A poesia e a fotografia se irmanam. Conjugam-se em imagens e as transmutam em sonhos, viagens, quimeras. Aqui, quem ama as imagens, escritas, sonoras, fotografadas, experimentará todas as emoções possíveis, pois tudo é vida e nos move, nos arranca da inércia. Poemas, declamações, ensaios, fotografias, trabalhos meus e de gente querida, terão aqui um lugar para instalar-se, mover-se, provocar-se. Espero que seja para vocês tão prazeroso ver, ler e ouvir, como é para mim fazê-lo! E que seu mergulho nas imagens seja lindo, pois estamos carentes de boniteza!! 

Tenta-me de novo

Olá Cintilantes!
Hilda Hilst é a poeta mulher que mais amo! E passei a amá-la ainda mais, desde que há alguns anos, dei à minha filha um de seus livros e, que delícia descobrir que Hilda passou também a ser a poeta predileta da Dora!
Hilda é daquelas poetas que quando agarro um dos seus livros (e isso acontece todas as semanas!), não consigo largá-lo, esqueço-me das coisas, vou-me deixando enlevar pelo ritmo delicioso que só ela consegue dar a seus versos que, na maior parte das vezes, não são versos, são navalhas!
Hilda, muito antes dos eventos libertários feministas dos anos 1960, já usava sua pena para desfilar erotismo e libertação sexual, em plena década dos 1950, quase uma menina em seus vinte e poucos anos! Seus versos jorram gozo, prazer, fluidos, delícias, sem nenhum rasgo de pudor!
No poema que escolhi para hoje, é óbvia a temática do amor carnal. Contudo, Hilda nunca é óbvia, apesar de certeira, direta! Ainda que o poema exale sexo, líquidos, deleites, o eu-lírico, habilidosamente, não usa a palavra “corpo”, no primeiro verso, ao fazer a pergunta que abre e, praticamente, fecha o poema. O eu-lírico pergunta “por que haveria de querer a alma na cama do amado”. Assim, Hilda trata a relação carnal não apenas como um coito banal (imagem que usa ao final do poema, também nesse sentido), mas como um encontro de prazer e epifania, de gozo e transcendência, do obsceno e do sublime!
O poema tem a rubrica de Hilda Hilst. Impudico, desafiador, instigante! A poeta, num poema pequeno, solta sua língua ferina e lasciva, assina veementemente o poema, basta mirá-lo uma vez para sentirmos que sim, é um poema de Hilda Hilst!
E Hilda ainda quer mais, quer provocar-nos mais, e termina com um desafio ao amante:

“E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me”

Brilhante Hilda! Manda que o amante esqueça as relações deliciosas que tiveram, porque não importam mais, e lança o desafio, que aliás, é o título do poema: “tenta-me de novo. Obriga-me”. Esforça-te rapaz! Este final sempre me lembra os versos da música de Chico Buarque, “Deixe a menina”:

“Por trás de um homem triste
Há sempre uma mulher feliz
E atrás dessa mulher
Mil homens, sempre tão gentis
Por isso, para o seu bem
Ou tire ela da cabeça
Ou mereça a moça que você tem”

Tenta-me de novo

E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

Hilda Hist

4 respostas para “Tenta-me de novo”

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