A poesia e a fotografia se irmanam. Conjugam-se em imagens e as transmutam em sonhos, viagens, quimeras. Aqui, quem ama as imagens, escritas, sonoras, fotografadas, experimentará todas as emoções possíveis, pois tudo é vida e nos move, nos arranca da inércia. Poemas, declamações, ensaios, fotografias, trabalhos meus e de gente querida, terão aqui um lugar para instalar-se, mover-se, provocar-se. Espero que seja para vocês tão prazeroso ver, ler e ouvir, como é para mim fazê-lo! E que seu mergulho nas imagens seja lindo, pois estamos carentes de boniteza!! 

A un Olmo seco

Olá Cintilantes!
Há poetas que são tão territoriais, tão arraigados à própria aldeia, que só podem ser sentidos dentro de seu território. Seguramente, esse é o caso do sevilhano Antonio Machado, nascido na capital da Andaluzia em 26 de julho de 1875. 26 de julho é meu aniversário, e não é um acaso que Machado é nosso poeta hoje, mas isso é assunto para mais adiante.
Quando fui à Sevilla pela última vez, saindo de Madrid, de trem, à medida que a Velha Andaluzia se aproximava, os versos, as cores, o ritmo da poesia de Machado se ia impondo. O amarelo dos campos de oliveiras, o verde seco das árvores baixas do quase deserto andaluz, a melancólica solidão da vastidão “sureña”, em contraste com o branco luminoso das casas andaluzas, porque mediterrâneas, e seus milhares de vasinhos de flores de todas as cores, literalmente, de todas as cores, faziam o vate sevilhano cantar em meus ouvidos!
O cheiro da Andaluzia impregna os versos do grande poeta sevilhano, mesmo que Machado também tenha sido poeta de Castilla, Barcelona, França etc. O olor das oliveiras salta de seus versos como gotas d’água dos lagos atingidos pelas pedras!
Mas há outro motivo para o poeta andaluz estar aqui a partir de hoje. Há dez dias, sofri um infarto agudo, quase morri, tive que passar por uma cirurgia para desobstruir uma artéria. Ainda no hospital, no leito da UTI, pensava na nova vida que, obrigatoriamente, passarei a ter a partir do infarto: nenhum cigarro mais, muito menos álcool, uma alimentação mais regrada, um ritmo menos intenso de vida.
E o poeta andaluz me veio imediatamente à cabeça! Sua poesia sempre respondeu ao ritmo mais vagaroso de uma terra que compõe o chamado, carinhosamente pelos andaluzes, “Triángulo del Infierno”, junto com Córdoba e Jaen, pelas temperaturas obscenas que fazem no verão! E, parafraseando a cardiologista que me atendeu no hospital, agora eu tenho dois aniversários: o 12 de maio, dia do meu renascimento, e o 26 de julho, dia do meu nascimento, assim como o maravilhoso poeta sevilhano!
Está aqui o poema, em castellano e em português, com tradução minha, e minhas declamações, também nos dois idiomas!

¡Disfrútenlo!

A um Olmo seco

Ao velho olmo, fendido pelo raio
e pela metade apodrecido,
com as chuvas de abril e o sol de maio,
algumas folhas novas lhe vão saindo.
O olmo centenário na colina
que lambe o Douro! Um musgo amarelento
lhe mancha a casca branquinha
do tronco carcomido e poeirento.
Não será como os álamos e seus bemóis,
que guardam o caminho e a ribeira,
morada de castanhos rouxinóis.
Um exército de formigas em fileira
vai trepando por ele, e em suas entranhas
urdem suas teias grises as aranhas.
Olmo do Douro, antes de derrubado
pelo lenhador com seu machado, 
e o carpinteiro te transforme em trave de sineira, 
eixo ou canga de carroça;
antes que amanhã, rubro, na lareira 
ardas em alguma mísera choça,
à beira do caminho;
antes que te arranque um torvelinho
e rompa o sopro das serras brancas;
antes que o rio te conduza até o mar
por vales e barrancas,
olmo, anotar em meu caderno quisera
a graça da tua rama enverdecida.
Meu coração também espera
rumo à luz e à vida,
outro milagre da Primavera.
A un Olmo seco
(del libro Campos de Castilla)

Al olmo viejo, hendido por el rayo
y en su mitad podrido,
con las lluvias de abril y el sol de mayo,
algunas hojas nuevas le han salido.
¡El olmo centenario en la colina
que lame el Duero! Un musgo amarillento
le mancha la corteza blanquecina
al tronco carcomido y polvoriento.
No será, cual los álamos cantores
que guardan el camino y la ribera,
habitado de pardos ruiseñores.
Ejército de hormigas en hilera
va trepando por él, y en sus entrañas
urden sus telas grises las arañas.
Antes que te derribe, olmo del Duero,
con su hacha el leñador, y el carpintero
te convierta en melena de campana,
lanza de carro o yugo de carreta;
antes que rojo en el hogar, mañana,
ardas de alguna mísera caseta,
al borde de un camino;
antes que te descuaje un torbellino
y tronche el soplo de las sierras blancas;
antes que el río hasta la mar te empuje
por valles y barrancas,
olmo, quiero anotar en mi cartera
la gracia de tu rama verdecida.
Mi corazón espera
también, hacia la luz y hacia la vida,
otro milagro de la primavera.

2 respostas para “A un Olmo seco”

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